Cooperativismo é o caminho para feiras
DATA: 1/2/2010
FONTE:  DIÁRIO DO PARÁ  em  Ciência em Ação / Página A6

Frequentar as feiras e os mercados municipais de Belém é uma tradição presente no cotidiano de muitas famílias paraenses. Há quem diga que o hábito é uma ação cultural praticada pela humanidade há muitos anos. Além disso, os locais, a qualquer hora do dia, sempre estão bastante movimentados, mesmo tendo os feirantes que enfrentar a concorrência do grande varejista, seu principal concorrente.

Resgatar os mercados e as feiras municipais também é uma atitude cultural e coletiva, já que é um lugar público que pertence a todos. Foi pensando nisso, e nos desafios enfrentados pelos comerciantes das feiras municipais, para fazer com que o cliente prefira comprar no local que no grande varejista, que dois egressos realizaram uma pesquisa que se tornou trabalho de conclusão.

Eldon Augusto Monte e José Adilson Almeida, egressos do curso de Administração – habilitação em Marketing, do Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa), realizaram um projeto de cunho social, visando mostrar para a comunidade as condições sociais do Distrito Administrativo do Guamá (DAGUA) ao perceberem a realidade da feira no ano de 2009. “Escolhemos o local devido o bairro ser um dos mais populosos de Belém”, afirmam.

“O nosso trabalho teve como ponto forte promover a economia solidária baseada no cooperativismo, que é a união de pessoas voltadas para um objetivo comum. Porém, percebemos que isso só será possível se houver uma boa convivência por parte dos próprios feirantes”, explica José Almeida.

Os profissionais procuraram abordar durante a pesquisa a realidade econômica e social do Guamá, entrevistando pessoas da administração e direção do setor de feiras e mercados municipais, bem como a população que frequenta o ambiente. “Realizamos entrevistas com a gestão pública, com base nos funcionários da Secretaria de Economia (Secon) e os próprios feirantes para saber os seus posicionamentos com relação à economia solidária. Além disso, realizamos pesquisa de campo, voltada para os feirantes, com o intuito de analisar a visão dos mesmos com relação ao seu local de trabalho”, afirma Eldon Monte.

O resultado não surpreendeu os administradores: a maioria dos feirantes não concorda com o cooperativismo. “Eles preferem trabalhar só. Grande parte dos feirantes conhece o assunto ou tem o desejo de conhecer, mas prefere não se juntar aos outros no local de trabalho, preferindo a autonomia”, diz José Almeida. Para ele, esse fato ocorre devido à forte descrença que o feirante tem na possível atuação em grupo. “Se há cooperativismo, há desconfiança, daí o fato de eles preferirem ser autônomos”, acrescenta Almeida.

Os egressos ainda almejaram demonstrar para os feirantes e à sociedade que, com uma política pública que estimule e qualifique a economia solidária, dá para trabalhar com êxito em equipe. Mas, segundo eles, os problemas da desordem no local de trabalho deixam uma impressão ruim ao comerciante, causando um impacto direto em suas vendas, uma vez que o consumidor percebe e deixa, muitas vezes, de comprar no local.

Além disso, os administradores perceberam que há uma variação muito grande nos preços dos produtos comercializados na feira do Guamá que acaba prejudicando o consumidor. No entanto, eles oferecem uma alternativa. “Se houver uma integração, com a realização da economia solidária e o cooperativismo, pode haver diminuição de custos e a infraestrutura pode melhorar no local. Isso tudo é importante porque a sujeira é visível na feira, uma vez que os feirantes manipulam alimentos perto de esgotos”, explica Eldon Monte.

Os quatro pilares do Marketing, produto, preço, praça e promoção, também foram peças importantes no trabalho dos administradores, que teve a orientação da professora Manuelle Martins. “Percebemos que os produtos comercializados na feira são de baixa qualidade, por causa dos aspectos sanitários e de higiene”, afirmam. Com relação ao preço, eles garantem que, como cada mercadoria possui preço individual, com o cooperativismo, os feirantes economizariam com o transporte e poderiam ganhar descontos, tendo a possibilidade de ter preços mais competitivos, com produtos sendo vendidos para o consumidor a um valor menor, devido ao volume de compra.

“Já a praça é o sistema de distribuição. Se melhorar a logística de distribuição dos produtos, com o trabalho em equipe, o produtor deverá entregar um maior volume de mercadorias para o feirante no local onde os itens são comercializados”, explicam. E promoção, segundo eles, é promover. “E promover é comunicar. O que se deve comunicar é a qualidade, de fato, do produto vendido pelos feirantes. A melhoria do atendimento na feira do Guamá e o aprimoramento do espaço seriam, por si só, fatores de promoção da feira, com a realização de um tratamento diferenciado, pois o que garante a venda é o espaço e o atendimento”, ressaltam.

Os administradores perceberam que a feira do Guamá reflete como são as feiras de Belém e os arredores. “O trânsito é precário, as pessoas estão cada vez mais estressadas, as políticas públicas estão muito frágeis, a insegurança está tomando conta da cidade e ainda há a precariedade sanitária.” Eles, no entanto, oferecem uma alternativa. “Necessita-se de políticas públicas sociais para que as pessoas fiquem mais unidas e implantem a economia solidária para que haja um melhor aproveitamento do espaço e nas vendas dos feirantes”, concluem.

 

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